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A
decisão de Felipe Díaz era
óbvia. Na pior das hipóteses, a dúvida
poderia ser se plantar mais hectares de chardonnay ou de sauvignon
blanc. Para qualquer um que conhecesse o meio vinícola
chileno de finais dos anos 90 ficava claro que Díaz
devia “entupir” sua fazenda Loma Larga
de variedades brancas.
Não
era à toa que a propriedade agrícola que sua
família tinha comprado ficava no coração
do vale de Casablanca.
Porém,
o engenheiro comercial fez uma jogada ilógica. Plantou
as clássicas uvas brancas do vale e simultâneamente
iniciou o cultura de parreiras de cabernet sauvignon, cabernet
franc, merlot, malbec, pinot noir e syrah. Ao todo foram quase
30 hectares de variedades tintas “enfiadas”
em Casablanca.
“Nós
queriamos fazer uma coisa singela, que tivesse características
distintas do clássico vinho chileno. No país
quase não havia experiência em tintos de clima
frio; mas no estrangeiro alguns dos melhores tintos são
produzidos em zonas desse tipo. Do ponto de vista comercial,
existia a oportunidade de conseguir preços por caixa
mais altos do que a média nacional”, lembra
Felipe Díaz, CEO de Loma Larga Vineyards.
Em
teoria, uma idéia interessante, mas que aos olhos de
muitos antecipava uma fracasso total. No Chile, nesses dias,
os tintos eram sinônimo dos cálidos vales centrais,
onde as uvas vingam quase sem dificuldades e obtem-se razoáveis
volumes por hectare. Se meter em zonas frias sem dúvida
significava a obtenção de produção
menor.
Não
obstante e depois de vários anos de “ensaio
e erro” –período em que Díaz
“puxou” o cabernet sauvignon e o merlot-,
Loma Larga deu com um “time”
de desempenho notável: o syrah, o malbec,
o cabernet franc e o pinot noir.
Não
foi à toa que na edição de 2008 da guia
de vinhos Descorchados, seu cabernet franc
arranjou 93 pontos e o título de monarca do setor “outros
tintos”.
Incluso
da ótica comercial a idéia de Díaz funciona
melhor. As caixas de tintos de Loma Larga
têm um valor médio de US$ 90.oo, bastante mais
do usual nos envios chilenos.
Felipe
Díaz já não está sozinho
Atualmente,
não há vinha que não esteja plantando
ou que não tenha planos de plantar tintos em áreas
ribeirinhas como Casablanca, Limarí ou do sul, como
Biobío. Algo impensável faz uma década,
mas que hoje é uma tendência determinante na
indústria vinícola chilena.
Procura
internacional
Para
Adolfo Hurtado, enologista e gerente da vinícola
Cone Sul, atrás do auge dos vinhos
tintos de clima frio há uma importante mudança
no gosto dos consumidores internacionais.
“Existe
uma mega-tendência a consumir tintos mais elegantes
e frescos. A procura deles vai em aumento constante porque
as pessoas estão procurando vinhos com menor concentração
e sobre-extração”, explica Hurtado.
Por
sua vez, Felipe García, enologista
de Casas del Bosque, põe em destaque
que o Chile tem muito a ganhar nesta nova ordem mundial.
“Graças
aos tintos de clima frio nosso país está conseguindo
vinhos de classe mundial, que combinam com a comida. Esta
é uma área gourmet que ainda não é
tão grande no mundo, porém que cresce sem pressa
mas sem pausa”, afirma García.
E
como se relaciona essa procura com o clima frio?
Simples:
as temperaturas ribeirinhas ou do sul mais baixas limitam
o incremento dos açúcares na uva, o que se reflete
em vinhos com menos álcool. Em forma paralela, graças
a que a maturidade das uvas leva mais tempo do que nas regiões
mais cálidas, nas áreas frias os enólogos
podem esperar que os taninos das uvas atinjam sua plenitude
–e conseguir assim vinhos com características
menos incisivas-.
O
“morango da torta” é que
as uvas obtêm uma acidez mais alta, o que faz com que
os vinhos sejam mais frescos.
“Em
geral, os tintos de clima frio têm uma expressão
de cheiros muito interessante, são muito expressivos”,
diz Paula Cárdenas, enóloga
da vinha Matetic, localizada na região
de Rosario, entre Casablanca e
San Antonio.
Com um mercado internacional saturado de vinhos
ultra-potentes e concentrados, dá para entender por
quê os consumidores procuram produtos mais elegantes.
O
mascarão de prôa
Sem dúvida, pinot noir é a cepa
que mais incentivou as vinhas chilenas para olhar com olhos
novos a costa e o sul para seus tintos.
A
delicada cepa vinga apenas em climas frescos, e hoje em dia
é uma das de maior procura internacional. Boa parte
desse sucesso explica-se pelo interesse público que
lhe otorgou o popular filme “Sideways”,
“Entre copas”, em castelhano.
Graças à procura mundial muito
ativa, o interesse empresarial por esta cepa está crescendo
com força.
Córpora
Wines, de Pedro Ibáñez,
converteu-se na firma enológica com maior quantidade
de hectares de pinot noir no hemisfério sul: mais de
trezentos. Ibáñez apostou no
frio e chuvoso vale do Biobío.
A
vários centenares de quilômetros ao norte, em
Casablanca, Felipe García dá um exemplo claro
do atraente que é o pinot noir.
“A
vinha do pinot está toda vendida. Temos um projeto
até 2012 para aumentar fortemente nossa produção.
Produto chileno de boa qualidade, tem procura”,
explica García.
Segundo
Alberto Antonini, flying winemaker italiano,
as possibilidades do pinot chileno são muito boas.
“Acredito
que aqui há zonas que não somente podem dar
bons pinot, mas, se são bem trabalhados, ficar entre
os melhores do mundo. Do que eu conheço de Leyda, a
pesar de ser bom, apenas atinge a metade do seu potencial.
Por exemplo, se se plantasse em alta densidade conseguiriam-se
avanços notáveis”, diz Antonini.
Mas o Chile dos vinhos tintos frios não
vive apenas do pinot noir: o syrah também está
dando o que falar.
A
diferença dos seus parentes dos vales centrais, com
mais corpo e álcool, em regiões como San
Antonio, Casablanca e Limarí o syrah desenvolve
uma personalidade mais sutil, fresca e com cheiros a especiarias.
“Os
cítricos recebem muito bem essas características.
Tendem a se associar mais com os syrah franceses que com os
australianos, graças à sua elegância”,
afirma Paula Cárdenas.
Novamente,
não foi casual que em Descorchados 2008 seis dos melhores
nove syrah viessem dos vales com influência marítima,
como Limarí, San Antonio ou Casablanca.
Por isso não chama a atenção
que na indústria chilena do vinho exista a sensação
de que o melhor está por vir.
“Muitas
firmas estão entrando com seriedade nos tintos de clima
frio. Não há dúvida de que este fenômeno
vai explodir nos próximos anos”, sintetiza
Jean Charles Villard, enologista da vinha
Villard.
Cuidados
especiais
Fica
claro: produzir tintos en zonas frias é mais complicado.
A maior umidade aumenta as possibilidades de infeções
por fungos. E é necessário reduzir a carga de
uvas por hectare. “Nos climas frios nunca se conseguem
os 12 mil quilos por hectare que se atingem nos vales centrais.
Na melhor das hipóteses, chega-se aos 8 mil quilos”,
explica Rodrigo Romero, enologista de Porta
de Viñedos Corpora.
Eduardo Moraga Vásquez.
30
de junho de 2008
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